Terça Traquina – Aos adolescentes, nosso amor!


“A glória dos jovens é a sua força (…)”.

Prov. 20.29a

 

Quando estava na pós-graduação, cursei uma disciplina que tratava da clínica com adolescentes. Nela, fomos desafiados a escrever uma carta para alguém que estivesse entrando na adolescência. Senti que precisava me ancorar nas teorias estudadas sem perder a afetividade nem a firmeza. Levei tão a sério que, por algum momento, tive a esperança de que algum adolescente pudesse lê-la e ter o alívio para as suas angustias e os seus anseios compreendidos.

Hoje, o desafio é escrever uma correspondência para o educador do sujeito que está abandonando a infância e adentrando no mundo adulto, com todas as suas dores e delícias. É assim que desejo iniciar o mês de Novembro, dedicado aos adolescentes.

Querido(a) educador(a),

     Sei que estás a ponto de perder a cabeça, e já começas a perceber, nitidamente, as rugas de preocupação que se instalaram no teu rosto. A criança que, até ontem, ouvia tuas histórias e cantigas de ninar; agora vive te confrontando e testando todos os teus limites e afetos. Esse ser, agora mais estranho que nunca, parece ter prazer em te afrontar, ao mesmo tempo que se mostra dependente do teu amor e cuidados.

     Sei também que é difícil tentar entendê-lo(a) nesse momento, afinal, tudo que você mais quer é que ele(a) te ouça e siga pelos caminhos que trilhastes pra ele(a). Mas sabe o que aconteceu? A tua criança cresceu! É, está mais independente e, a cada dia que se passa, se apropria de suas ideias, passa a ter desejos próprios. Você não imagina o quanto está sendo difícil para tua criança se dar conta de que ela precisa, agora, começar a caminhar com as próprias pernas e ter o peso das responsabilidade em suas costas.

     Imagino que você tem tentado, a todo custo, se aproximar e retomar a amizade que vocês tinham; mas agora tua cria só quer saber dos amigos. E sabe porquê? É a hora dele(a) se apropriar de si, e para isso, ele(a) irá se espelhar nos iguais. Não estranhe se um dia ele(a) aparecer hippie, num outro, roqueiro… Ele(a) está tentando se encontrar, e por isso irá se contrapor a você o tempo todo, é importante ter paciência e amor.

Não sabe ele que essa busca é incessante, e está mais forte agora porque ele(a) já não se sente mais criança, mas sabe que não é adulto. Ele(a) é lembrado, a todo o momento, que cresceu, mas não tem liberdade, maturidade nem autonomia para tomar as decisões sozinho(a). Seu corpo o(a) confunde sem parar; e pior, o(a) deixa insatisfeito(a): é grande demais, é pequeno demais, é gordo demais, é mais magro do que gostaria. Ah, os pés e mãos, são feios… e o cabelo? Nada dá jeito. É assim que ele(a) se percebe: perdido nos pensamentos, afetos e imagem corporal.

Infelizmente, ele(a) apenas se dará conta da beleza desse desabrochar quando esta fase já fizer parte do passado. Por hora, tudo que consegue sentir é confusão, e responde a tudo isso com tristeza e agressividade. Mesmo que você não o pressione conscientemente, teu adolescente se sentirá, constantemente, pressionado a pensar no futuro, em que rumo dar a vida. É comum, afinal, o próximo estágio é a vida adulta; mas nem por isso é um processo confortável.

Te peço que tenhas paciência e pulso firme; que tenhas amor e sabedoria para orientá-lo(a). Acredito que a afetividade e empatia (afinal, você também já foi adolescente um dia!) sejam os melhores remédios para curar a dor de uma alma e de um corpo que se sentem inadequados.

Despeço-me desejando uma jornada repleta de aprendizado e amor para todos os envolvidos.

Carla Q. Matias