Terça Traquina – A criança e o outro


“No muito saber, muito sofrer; e aquele que aumenta em conhecimento, aumenta em sofrimento.” Ecl 1.18

 

Há alguns anos, eu estava viajando e fiquei na angustia porque iria perder o primeiro dia de aula da minha sobrinha. Então, meu marido foi e gravou tudo. Quando os vídeos chegaram, fui olhar num misto de ansiedade e alegria, para logo depois, me deparar com o desespero: a minha sobrinha que, na época, estava com dois anos, pegou uma bola para brincar e em seguida um coleguinha, da mesma idade, puxou a bola da mão dela. Ficou perceptível a carinha de desamparo, de quem não sabia o que fazer. E eu, a mais de 2000 km de distância, não estava podendo fazer nada. Liguei para o marido questionando o motivo pelo qual ele deixou aquilo acontecer. Ele, pacientemente, ajudou-me a lembrar de algumas coisas, dentre elas, a mais importante: ela vai aprender a se relacionar!

Quem já passou pela experiência de levar uma criança para escola nos seus primeiros anos de vida, certamente já sentiu na pele a angustia de “soltar” um ser indefeso, em um local “desconhecido” com pessoas que não fazem parte da convivência diária da criança. Talvez a aflição maior seja a de saber que não estará lá, presente, para resolver qualquer situação que possa aparecer.

Todavia, é justamente nessa ausência, que a criança passará a desenvolver autonomia e, consequentemente, aprender a dar conta das demandas ofertadas a partir da relação com o outro. Sim, haverá mordidas, quedas, choros; mas também haverá aprendizados significantes que servirão de peças fundamentais na constituição de um sujeito social, dotado de ética e princípios que nortearão a sua vida em sociedade.

Será na troca com o outro que a criança aprenderá a respeitar o espaço que não é o seu. Aprenderá a compartilhar, a respeitar o que é diferente e a lidar com o que é novo. Aprenderá a se defender e achar estratégias para não sair machucada dos conflitos diários, característicos das relações humanas. Talvez o aprendizado mais árduo seja o de saber lidar com ela mesma, reconhecendo seus limites, suas possibilidades e seus desejos.

Acredito que o mais belo do processo de se tornar um ser humano seja a consciência de que esse aprendizado não cessa. Pode-se ter dois, trinta ou oitenta anos, o fato é que estamos sempre sendo surpreendidos pela vida e necessitando aprender a lidar com o que é novo. Há poucas certezas na vida, e uma delas é a que tudo muda, e muda o tempo todo.

Sendo assim, lembrem-se: todos os dias é como se fosse o primeiro dia de aula de nossas vidas! Façamos bom proveito de tudo que nos é ensinado.

 

Carla Queiróz

Psicóloga