Terça Traquina – A tecnologia e suas possibilidades


A tecnologia e suas possibilidades

Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas convêm.”

1 Coríntios 10:23

 

Imagine, nesse momento, uma criança interagindo com um computador, um tablet ou smartphone. Agora, pense naquele adolescente que lida (maravilhosamente!) bem com os jogos de videogame e as interações relacionais que eles proporcionam com pessoas que moram em cidades, estados, países ou até continentes diferentes; mas não consegue, sequer, cumprimentar um parente que chegou para almoçar. Essas cenas são estranhas para você? Elas te assustam?

Se sua resposta foi “sim”, parabéns! Talvez você ainda não tenha se habituado com o modi operandi do momento atual: pessoas que andam pelas ruas com a cabeça baixa enquanto mechem em seus celulares, ou que dirigem digitando mensagens frenéticas no whatsApp e comentando alguma postagem do Facebook. Penso que há, ainda, um caso pior: os que substituem a magia de uma conversa olho no olho, em um restaurante, por um silêncio vazio de duas cabeças baixas, conectadas com outras pessoas fisicamente distantes. Ah, e as crianças que substituem a trela de uma corrida de bicicleta, um jogo de bola ou esconde-esconde, para baixarem as suas cabecinhas fervilhantes e se concentrarem no jogo virtual do momento? É de arrancar os cabelos.

Se sua resposta foi “não”, parabéns também! É possível que você já esteja por dentro das últimas tendências, e está no time daqueles que buscam uma relação saudável com o que a tecnologia tem para oferecer (sim, e são muitas possibilidades maravilhosas!). Talvez você já tenha compreendido que nadar contra a maré só faz cansar, é inútil; e ao invés de proibir a filha de 05 anos de criar um gato virtual, ou ainda, de colocar uma faixa interditando o Xbox do filho de 17 anos, é mais educativo estabelecer limites, ou seja, dias, horários e ocasiões adequadas para o uso da tecnologia.

Muitas vezes, deixa-se o saudosismo falar mais alto e o pensamento de “ah, mas no meu tempo era tão melhor…” vira algo recorrente, tornando mais árduo o exercício de adaptar-se ao que é novo. Acredito que o ponto chave seja compreender o que deve ou não ser substituído. Por exemplo, entre mandar um beijo para a mãe pelo whatsApp, e ir até o quarto dela para dar esse beijo, sentindo seu cheiro, pessoalmente; que opção você escolheria (Há casos desses encontrados no planeta Terra. Acredite!)? Por outro lado, tendo em vista um curto prazo de tempo para entregar uma pesquisa na faculdade, será que consiste em um grande problema substituir a biblioteca (muitas vezes abarrotada de poeira e títulos defasados, infelizmente!) pela liberdade de buscar artigos científicos (ou até livros completos) em sites sérios e confiáveis na internet?

Será que a questão problemática é mesmo o uso da tecnologia? Ou será o modo como a utilizamos? Talvez, o ponto seja, exatamente, o bom senso, tão necessário e negligenciado em todos os aspectos da vida prática. Quanto mais prazerosa a situação, mas difícil ponderar a hora certa de parar. Só após muito esforço e maturidade consegue-se chegar a uma postura razoável diante daquilo que nos traz, ao mesmo tempo, perdas e ganhos. O exercício é diário. Então, treinemos e ensinemos nossas crianças e jovens para que eles possam compreender isto a partir do nosso cuidado e afeto.

Carla Queiroz Matias.

Psicóloga