Terça Traquina – Conhecer é construir-se


como é feliz o homem que acha a sabedoria, o homem que obtém entendimento.” Provérbios 3:13.

 

Trabalho no Lar Maná com crianças que estão inseridas na comunidade escolar, ao mesmo tempo em que atuo como psicóloga escolar do ensino fundamental I e II; e uma das queixas mais recorrentes que ouço é a falta de interesse das crianças e adolescentes no que se refere aos estudos e a construção ativa do conhecimento. As queixas compreendem as conversas paralelas em sala, não cumprimento de tarefas e combinados estabelecidos entre a escola e o estudante, desrespeito à figura de autoridade etc.

Ao mesmo tempo em que esse movimento angustia os pais, causa nos professores uma espécie de desespero; e a frase que circula, sem parar, nos dois grupos é: “não sabemos mais o que fazer”. E não é para menos. Tornar-se interessante para uma criança ou adolescente nos tempos atuais virou mesmo uma tarefa árdua, ainda mais quando esta tarefa exige empenho, compromisso, responsabilidade, e o mais difícil: o exercício reflexivo.

Sabemos que o advento das novas tecnologias modificou, de forma considerável, a forma como nos relacionamos com o mundo e uns com os outros. Atualmente, quando queremos saber de alguma coisa, recorremos aos sites disponibilizados na internet, mesmo correndo o risco de não estarmos sendo (bem!) informados por fontes confiáveis. Isto é mais cômodo do que recorrer aos livros ou buscar informações com os mestres, sejam os acadêmicos ou aqueles que possuem larga sabedoria de vida sem as graduações formais.

Já não há tanta paciência para receber ou buscar informações, refletir sobre estas, questioná-las e construir seu próprio caminho em busca do conhecimento. Agora, deseja-se tudo pronto; e desta forma, as crianças e adolescentes terminam esquecendo, ou nem conhecendo, o prazer da busca pelo saber; o prazer de ser protagonista do processo de aprendizagem. Sendo assim, todo conteúdo repassado é vazio de sentido, uma vez que não está intimamente relacionado à vida cotidiana do estudante nem aos seus interesses.

Felizmente, algumas escolas se baseiam na filosofia construtivista, que é uma linha pedagógica na qual o estudante é protagonista do processo ensino-aprendizagem. No construtivismo, o professor assume mais um papel de facilitador/orientador, estimulando que o próprio estudante, a partir das suas experiências, construa seu conhecimento.

Talvez o grande desafio da comunidade escolar e das famílias seja o de despertar/estimular o desejo por este conhecimento. Muitas vezes, mesmo sem perceber, os adultos fragilizam a curiosidade infantil com respostas simplistas, ou até mesmo em tom de censura para as perguntas mais capciosas. De fato, ser fonte informativa é uma grande responsabilidade, requerendo, sobretudo, honestidade quando não se sabe o que responder. Não há mal algum em convidar a criança ou o adolescente para pesquisar junto a nós sobre os temas que suscitam dúvidas. É justamente neste movimento que nós, adultos, também aprendemos a quebrar nossas resistências aos novos aprendizados.

Sendo o questionamento o alicerce da sabedoria, cabe a nós, educadores (pais, tios, professores…), contribuir para a formação de um ser humano reflexivo, questionador, criativo, autônomo, consciente de que, embora não detenha o saber absoluto sobre todas as coisas, é capaz de nutrir o desejo pela infindável jornada do conhecimento.

 

Carla Queiroz Matias

Psicóloga