Terça Traquina – Ser Pai é….


Ser pai é…

“(…) pois eu o escolhi para ser meu filho, e eu serei o pai dele” I Cron. 28:6b

“Agosto é o mês dos pais”. Quem não já viu ou ouviu esta frase em alguma propaganda midiática? Sabemos que um dos principais objetivos destas propagandas é estimular o desejo pelo consumo, pelas compras; e aí, este apelo consumista termina nos afastando do que, de fato, importa: celebrar com aquele que nos propiciou a vida, nos adotou e está presente ao longo da nossa história, no ato de dar limites, amar, educar, representando uma figura de autoridade e referência para todos nós.  Quando falo que um pai nos adota, mesmo que sejamos filhos biológicos, é porque todo pai possui, em suas fantasias e idealizações, um filho, antes mesmo que este seja concebido. Com a chegada do filho real, o pai adota aquela criança e passa a amá-la, mesmo que não corresponda à criança idealizada. Por este motivo, ser pai é, sobretudo, adotar o ser que está destinado a ser amado, educado, orientado e cuidado por ele.

É importante ter em mente que ser pai significa exercer uma função, a paterna, cuja característica fundamental é a de instaurar a Lei Simbólica e  estabelecer limites; além de prover o sustento, amor e cuidado. Exercer a função paterna é propiciar condições para que seu filho sinta-se seguro e protegido.

Mas será que a função paterna é exercida só e somente só pelo genitor do sexo masculino? Acredito que cada um de nós já tenha conhecido uma mãe, uma avó, uma tia ou tio que arcou com a responsabilidade de educar uma criança. Entretanto, o que observamos hoje é um fenômeno nomeado como “o declínio da função paterna”, com a horizontalização das nossas relações. Assim, vemos pais que gostam de se definir como amigos dos filhos,  esquecendo que “ser pai” é bem mais do que ser amigo. Entendemos, inclusive, que é importante que haja uma relação de amizade entre um pai e seu filho, desde que esse pai não abdique de sua função principal.

Muitas vezes, a cobrança que um pai possui de ser um super pai, vem do desejo de estabelecer com os seus filhos uma relação diferente (e melhor!) daquela estabelecida com seu próprio pai; tendo em vista que tudo que um pai não deseja é repetir certos tipos de conduta do seu próprio genitor. Deste modo, é possível entender a interpretação freudiana da frase: “a criança é o pai do homem”, em linhas gerais: os pais são, para seus filhos, o modelo de pai que gostariam de ter tido para si mesmos. Sigo acreditando que o mais importante para um ser em formação é estar sob os cuidados de alguém que garanta seus direitos fundamentais, seja em uma relação construída por consangüinidade ou por aliança. Ser pai é ser protagonista da história de uma criança: orientando-a para que se desenvolva nas esferas afetivas, cognitivas, éticas e sociais; oferecendo-lhe autonomia e  autoconfiança para que ela trace seu próprio caminho.

Carla Queiroz Matias

Psicóloga