E pode jogar lixo na rua?


Há alguns meses minha sobrinha, de cinco anos, estava visivelmente incomodada com a quantidade de lixo que estava vendo pela rua e me lançou esse questionamento: “e pode jogar lixo na rua?”. Em poucas palavras, tentei explicar que esse comportamento não era o desejável, mas que, infelizmente, era comum. É óbvio que ela não se deu por satisfeita e me lançou mais uma série de perguntas.

     A convivência com crianças, tanto na vida pessoal quanto na profissional, me faz refletir bastante, pois seus questionamentos são, na maioria das vezes, desnudos de censura e vestidos de ingenuidade. E o mais interessante é perceber o quanto o corriqueiro para nós adultos é objeto de curiosidade e aprendizado para uma criança.

     Suas curiosidades transitam nos mais diversos campos, sobretudo no que se refere aos limites e regras. Você já se percebeu pensando ou expressando verbalmente algo do tipo “esse menino quer testar meus limites”? Pois é, não é bem o seu limite que ele está testando, mas sim o próprio; e é desta forma que a criança vai se desenvolvendo e internalizando as regras sociais que regem nossa relação com o outro e com o meio ambiente.

     É a partir do estabelecimento dos limites e regras que a criança passa a compreender seus direitos e deveres e a importância destes para a construção de um relacionamento saudável com todos e tudo que há em sua volta.

     Todavia, o senso de cidadania será internalizado efetivamente se a criança ver e sentir, cotidianamente, coerência entre a fala e as ações do adulto responsável pela sua educação. Do que adianta dizer a minha sobrinha que é proibido jogar lixo na rua se, na próxima esquina, eu mesma jogo uma embalagem de biscoito no chão?

     É importante refletirmos sobre a responsabilidade que pesa sobre nós por sermos referência para qualquer criança que conviva conosco; e é nas ações diárias que nós temos a oportunidade de sermos o melhor que podemos ser para inspirar aqueles que amamos.

Carla Queiroz Matias

Psicóloga