Terça Traquina – Será que eu preciso mesmo dizer “não”?


Quem lida com crianças e adolescentes, seja na vida pessoal ou profissional, sabe a dificuldade que é impor limites, uma vez que há a grande possibilidade de frustrar ou entristecer aquele que amamos e cuidamos. Essa dificuldade cresce na medida em que as crianças e adolescentes, no próprio processo de amadurecimento, se enchem de argumentos (muitas vezes válidos!) para obter o que deseja.

Educar seres pensantes e capazes de argumentar é um ato incrivelmente belo. Nada mais lindo do que ver as crianças, em seus primeiros anos de vida, começando a concatenar ideias, expondo-as dentro da possibilidade do seu vocabulário, incluindo até a criação de novos vocábulos. Mas, mais belo ainda, é vê-las construindo suas ideias a partir de posturas éticas, pautadas nas relações de respeito com o meio.

E é aí que entra o “não”. Ter o desejo negado não é, nem de longe, uma experiência agradável; todavia, é que nos delimita, mostra até onde podemos ou devemos ir. E, embora os limites se apresentem como aspectos castradores, negativos; são também norteadores. Quem não já ouviu a expressão “Ah, ele está pedindo limites”, ao ver uma criança ou adolescente se comportando inadequadamente? Pois é, é justamente do “não” que esta criança ou adolescente está precisando para compreender suas (im) possibilidades. Nem sempre a quebra de limites é benéfica. Ao mesmo tempo em que pode significar superação, pode também gerar dor e sofrimento.

O processo de amadurecimento vai nos ensinando a lidar com a frustração, e nos faz entender que viver em um contexto relacional requer adequações. Isto não significa anular-se, mas sim apreender que o sentido das relações humanas está, sobretudo, no respeito às diferenças, e no cuidado com o outro e consigo.

 

Carla Queiroz Matias

Psicóloga